sábado, 6 de junho de 2015

A Professora de Piano

Não era a primeira vez que Leon adentrava àquela sala, e muito provavelmente não seria a última. Mas naquela tarde, a sala tão formal do Dr. Ricardo, seu terapeuta de meia idade com quem se encontra há pelo menos um ano, parecia até confortável, aconchegante.
A sala não havia mudado. Ele sim. Sentou-se confortavelmente no sofá, talvez pela primeira vez. E com um sorriso estampado no rosto começou a falar.
- Doutor, preciso te contar, conheci alguém...
- Certo, Leon. Continue, notei que está muito feliz.
- Lembra que te disse semana passada que iria começar minhas aulas de piano? – perguntou, mas sem esperar qualquer resposta – Eu comecei, e a professora de piano é o ser humano mais incrível que eu conheci! Ela é fantástica doutor!
Dr. Ricardo tentou não demonstrar a preocupação que lhe veio por causa da agitação e entusiasmo de seu paciente. Na semana anterior, Leon estava muito deprimido, mais deprimido do que jamais estivera, e essa mudança abrupta de humor era, no mínimo, inesperada.
Leon era um garoto de dezesseis anos quando iniciou seu tratamento psicológico com Dr. Ricardo. Havia começado o tratamento por indicação judicial, o relatório de seu caso explicava as necessidades de Leon para um acompanhamento semanal.
O garoto era filho único de uma família rica tradicional paulistana, perdeu a mãe muito cedo, tinha apenas cinco anos quando a viu definhar na cama, vítima de um câncer terminal, e cresceu distante do pai, distancia física, mas principalmente emocional. E não eram esses os principais motivos que o levaram àquela sala.
Na véspera de seu aniversário, no ano anterior, enquanto voltava de uma pizzaria na região sul da cidade, foi abordado por um carro estranho. Já era noite, e Leon estava desacompanhado, sempre andava só pela cidade, não tinha amigos e não gostava de seguranças, apesar de pertencer a uma família de posses. Os homens puxaram Leon para dentro do carro. De alguma forma sabiam quem ele era e quanto dinheiro sua família possuía.
Mantiveram o garoto em cativeiro por três intermináveis meses. Mas não era por conta do trauma que o juiz lhe indicou tratamento, e sim porque, no decorrer desses meses, Leon desenvolveu a síndrome de Estocolmo, ou seja, desenvolveu simpatia e sentimentos de amizade e até mesmo amor pelos sequestradores.
Por isso, foi muito duro para ele quando seus sequestradores morreram a tiros em decorrência de seu resgate. Leon chorou de maneira inconsolável por dias inteiros. E, desde então, nenhum sorriso lhe apareceu nos lábios carnudos, nenhum brilho lhe brotou nos olhos verdes, pelo menos até agora.
Ficou muito perceptível a excitação com que Leon contava os detalhes sobre sua professora de piano ao Dr. Ricardo. Sua aparência física, mulher tão bela e jovem, de nome Melissa, apenas vinte e três anos e um sorriso tão brilhante quanto o sol. Contou todos os detalhes do rosto e do corpo, mas também todos os traços que conseguiu conhecer sobre sua personalidade nessa primeira aula que tiveram juntos. Esse período de duas horas que permaneceram no mesmo ambiente, bem perto um do outro, as mãos se encontrando a cada nota... Leon percebeu que estava, claramente, apaixonado de todo o coração.
Ao final da sessão, Dr. Ricardo pediu a ele que tivesse cautela, que fosse devagar, mas que sim, confessasse o que estava sentindo à sua amada Melissa, e que não se sentisse mal caso não fosse correspondido.
Leon prometeu ao doutor que tomaria cuidado e saiu alegremente pela porta da sala. O carro e seu segurança, que agora o acompanhava para todos os lugares, estavam aguardando do lado de fora da casa que servia como consultório.
Dr. Ricardo observou o garoto sorridente entrar no carro e ir embora. Em seus pensamentos, vinham as possibilidades que a paixão pela professora de piano poderia trazer àquela triste vida que o garoto vivia até então. Certamente havia esperança para aquele pobre rico jovem que conheceu a felicidade tardiamente.