Não era a primeira vez que Leon adentrava àquela
sala, e muito provavelmente não seria a última. Mas naquela tarde, a sala tão
formal do Dr. Ricardo, seu terapeuta de meia idade com quem se encontra há pelo
menos um ano, parecia até confortável, aconchegante.
A sala não havia mudado. Ele sim. Sentou-se
confortavelmente no sofá, talvez pela primeira vez. E com um sorriso estampado
no rosto começou a falar.
- Doutor, preciso te contar, conheci alguém...
- Certo, Leon. Continue, notei que está muito feliz.
- Lembra que te disse semana passada que iria começar
minhas aulas de piano? – perguntou, mas sem esperar qualquer resposta – Eu
comecei, e a professora de piano é o ser humano mais incrível que eu conheci!
Ela é fantástica doutor!
Dr. Ricardo tentou não demonstrar a preocupação que
lhe veio por causa da agitação e entusiasmo de seu paciente. Na semana
anterior, Leon estava muito deprimido, mais deprimido do que jamais estivera, e
essa mudança abrupta de humor era, no mínimo, inesperada.
Leon era um garoto de dezesseis anos quando iniciou
seu tratamento psicológico com Dr. Ricardo. Havia começado o tratamento por
indicação judicial, o relatório de seu caso explicava as necessidades de Leon para
um acompanhamento semanal.
O garoto era filho único de uma família rica
tradicional paulistana, perdeu a mãe muito cedo, tinha apenas cinco anos quando
a viu definhar na cama, vítima de um câncer terminal, e cresceu distante do
pai, distancia física, mas principalmente emocional. E não eram esses os
principais motivos que o levaram àquela sala.
Na véspera de seu aniversário, no ano anterior,
enquanto voltava de uma pizzaria na região sul da cidade, foi abordado por um
carro estranho. Já era noite, e Leon estava desacompanhado, sempre andava só
pela cidade, não tinha amigos e não gostava de seguranças, apesar de pertencer
a uma família de posses. Os homens puxaram Leon para dentro do carro. De alguma
forma sabiam quem ele era e quanto dinheiro sua família possuía.
Mantiveram o garoto em cativeiro por três
intermináveis meses. Mas não era por conta do trauma que o juiz lhe indicou
tratamento, e sim porque, no decorrer desses meses, Leon desenvolveu a síndrome
de Estocolmo, ou seja, desenvolveu simpatia e sentimentos de amizade e até
mesmo amor pelos sequestradores.
Por isso, foi muito duro para ele quando seus sequestradores morreram a tiros em decorrência de seu resgate. Leon chorou de
maneira inconsolável por dias inteiros. E, desde então, nenhum sorriso lhe apareceu
nos lábios carnudos, nenhum brilho lhe brotou nos olhos verdes, pelo menos até
agora.
Ficou muito perceptível a excitação com que Leon
contava os detalhes sobre sua professora de piano ao Dr. Ricardo. Sua aparência
física, mulher tão bela e jovem, de nome Melissa, apenas vinte e três anos e um
sorriso tão brilhante quanto o sol. Contou todos os detalhes do rosto e do
corpo, mas também todos os traços que conseguiu conhecer sobre sua
personalidade nessa primeira aula que tiveram juntos. Esse período de duas
horas que permaneceram no mesmo ambiente, bem perto um do outro, as mãos se
encontrando a cada nota... Leon percebeu que estava, claramente, apaixonado de
todo o coração.
Ao final da sessão, Dr. Ricardo pediu a ele que
tivesse cautela, que fosse devagar, mas que sim, confessasse o que estava
sentindo à sua amada Melissa, e que não se sentisse mal caso não fosse
correspondido.
Leon prometeu ao doutor que tomaria cuidado e saiu
alegremente pela porta da sala. O carro e seu segurança, que agora o acompanhava
para todos os lugares, estavam aguardando do lado de fora da casa que servia
como consultório.
Dr. Ricardo observou o garoto sorridente entrar no
carro e ir embora. Em seus pensamentos, vinham as possibilidades que a paixão
pela professora de piano poderia trazer àquela triste vida que o garoto vivia
até então. Certamente havia esperança para aquele pobre rico jovem que conheceu
a felicidade tardiamente.
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